Wilson Alves Ribeiro Jr.
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metamorfose e mito: da forma e seus limites
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dânae e a chuva de ouro. anônimo, 450-425 a.C. © Marie-Lan Nguyen W
Minuta de MINI-CURSO de 4h30min, ministrado de 27 a 30 de maio de 2003 em Araraquara (SP), durante a XVIII Semana de Estudos Clássicos da Regional SE-2 da SBEC, juntamente com Flávia R. Marquetti, da FCLAr-UNESP.
Ementa publicada em Scripta Manent, Araraquara, v. 4, n. 1, p. 7, 2003.
  1. As formas do desejo: Cronos, Zeus, Posídon, Deméter, Aqueloo.
  2. Punição e recompensa: Tirésias, Ácteon, Galatéia e Pigmalião, Atalanta, Circe.
  3. Mudança e fuga: Nereu, Proteu e Tétis; Dáfne, Siringe, Ifigênia, Tereu, Dioniso.
  4. A metamorfose consolatória: Níobe, Ciparisso, Galatéia e Ácis.
  5. Formas de engano: Héracles, Pasífae, ursas de Brauron e rapazes no culto a Ares, Prétides, Bacantes.
  6. A metamorfose como origem: os mirmidões, Deucalião e Pirra.
  7. As formas do sangue derramado: Jacinto, Adônis, Narciso, Átis.

Introdução

Metamorfose, "mudança de forma", vem do verbo μεταμορφόω, "eu tranformo". Marca do sobrenatural, do maravilhoso e do fantástico, é um dos temas-chave da mitologia grega.

As principais fontes para o estudo das metamorfoses são os documentos iconográficos (cerâmica, relevos, mosaicos, etc.) e a literatura, especialmente a do Período Helenístico em diante. Em Homero, os relatos de metamorfoses são raros; em Hesíodo e Píndaro, um pouco mais freqüentes; nos poetas trágicos, pouco mais de vinte relatos podem ser encontrados. Os principais autores tardios são Apolônio de Rodes (séc. -III), Eratóstenes (-275/-195), Nicandro (séc. -II), Ovídio (-43/17), Pseudo-Apolodoro (séc. II), Higínio (séc. II), Antoninus Liberalis (séc. II-III) e Boios (Período Helenístico).

Classificação

Muitos dos relatos tardios são "etiológicos", i.e., explicam a existência de alguma coisa, como uma ave ou uma árvore, ou "terminais", i.e., marcam o desfecho da história. Um tipo especial de relato terminal, a transformação em estrela ou constelação, é chamado de catasterismo.

Eis uma classificação simplificada das metamorfoses míticas (1) e alguns exemplos:

MAMÍFEROS Actéon, Calisto, Ió; Licáon, os piratas de Dioniso, os companheiros de Odisseu, Lúcio (2)
AVES Filomela e Tereu, Aléctrion, Plêiades (3)
PLANTAS Fílira, Dafne, Esmirna-Mirra (árvores);
Adônis, Jacinto, Narciso (flores)
PEDRA Níobe, Alcmena, vítimas de Medusa, Cércopes, Licas
ÁGUA Ácis, Lâmia
MUDANÇAS DE SEXO Tirésias, Caineus (literais);
Aquiles, Penteu, Héracles (não-literais)
ALTERNADORES DE FORMAS (shape-shifters) Proteu-Nereu, Tétis, Nêmesis, Dioniso
DIVINIZAÇÕES Ino-Leucotéia, Ifigênia-Hécate, Héracles
MISCELÂNEA Egina (ilha), Aracne (aranha), Cadmo e Harmonia (serpentes), espartos e mirmidões (homens), Titono (cigarra), Órion e Plêiades (estrelas)
PSEUDO-METAMORFOSES Zeus (aventuras amorosas), Deméter (fugindo de Posídon?), Aqueloo

Comentários

Para os antigos, a metamorfose era um dos mais importantes aspectos da ação divina; só os deuses podiam metamorfosear a si próprios e aos outros. Os deuses metamorfoseavam-se ou para atingir seus desígnios (Zeus e suas amantes), ou por piedade (Níobe), ou punição (os piratas de Dioniso) ou, ainda, como um sinal para os homens.


ἐμοὶ δὲ θαυμάσαι
θεῶν τελεσάντων οὐδέν ποτε φαίνεται
ἔμμεν ἄπιστον.
Para mim, quando os
deuses realizam maravilhas, nada parece
inacreditável.
Píndaro (Pi. P. 10.48-50)

As metamorfoses podiam ainda ocorrer de uma outra maneira: através da magia. Exemplos típicos podem ser encontrados no mito de Circe (cf. Odisséia) e do asno Lúcio (cf. textos de Luciano e Apuleio).

O papel das transformações no mito tem sido estudado desde a Antigüidade. Com o advento dos estudos antropológicos do século XIX, esse fenômeno foi considerado evidência de um primitivo estágio da religião grega (deuses-animais, rituais de passagem, cultos conservados durante gerações, etc.). Outras explicações seriam a existência de história folclórica prévia ou a simples invenção literária (metáfora da morte e formas de fuga, por exemplo).

Estudos recentes, em especial os de Irving (o.c.), consideram a metamorfose um importante elemento narrativo que, além de ilustrar as mudanças de categoria exigidas pela narrativa mítica, evoca respostas imaginativas, emocionais e torna a história excitante, tocante ou divertida...

Notas

  1. Apud Irving, o.c. (com leves modificações e pequenos acréscimos).
  2. Personagem de Luciano de Samósata (séc. II), mais conhecido entre nós pela versão latina de Apuleio (O Asno de Ouro).
  3. Na variante lendária mais conhecida, as Plêiades são transformadas em estrelas.

Leituras recomendadas

BURKERT, W. Religião Gega na Época Clássica e Arcaica. Trad.: M.J. Simões Loureiro. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1993.

CAMPBELL, J. As Máscaras de Deus - Mitologia Primitiva. Trad.: C. Fischer. São Paulo: Palas Athena, 1997.

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