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As quatro grandes escolas filosoficas do Período Helenístico (1) foram a Academia e o
Liceu, que já existiam no período anterior, e mais o Estoicismo e o Epicurismo, fundadas no
final do seculo
A "Escola Estóica", fundada por Zênon de Cítion em Atenas, durou cerca de 500 anos e grande foi a sua influência entre gregos e romanos. A doutrina estóica ajudou a moldar, por exemplo, o direito romano, pilar de muitas das doutrinas legais modernas.
O estoicismo é uma doutrina eclética, e incorpora muitos conceitos dos filósofos anteriores e contemporâneos: Heráclito, Platão e Aristóteles, os cínicos.
Desde Zênon o estoicismo dividia a filosofia em três partes, como o epicurismo: lógica, física e ética.
"(...) Tal como Sócrates havia ensinado, a virtude é o único bem e o homem virtuoso aquele que atingiu a felicidade através do conhecimento. O homem virtuoso encontra a felicidade dentro de si e é imune ao meio exterior, que conseguiu superar
Lógica
O termo lógica parece ter sido criado pelos estóicos, mas na época tinha sentido mais abrangente que o atual, e
Física
A visão estóica da natureza era tecnicamente materialista. O mundo é finito em extensão, e para agir ou ser objeto de ação, todas as coisas (objetos) existentes, mesmo um deus, a alma e qualidades abstratas como a bondade são dotadas de corpo. Os corpos são mais tênues ou mais sólidos conforme a noção que transmitem. A matéria total do mundo é infinitamente divisível e tudo preenche sem deixar vazios. As matérias mais finas e ativas são formadas de fogo e ar que misturados produzem um "espírito" ou "sopro ígneo" que nutre o mundo de dentro para fora.
Assim, o mundo é produto de um princípio ativo que permeia o mundo físico e dele faz parte, que modelou e modela os elementos materiais passivos para formarem o mundo ordenado de objetos separados, porém organicamente conectados entre si e mutuamente influentes. Deus não é extenso, faz parte do mundo que modelou, e foi um artífice competente, pois há ordem e designio nos aspectos significativos da realidade (o mundo é um cosmo (3)).
O corpo do cosmo é guiado pela razão, nada acontece por acaso, tudo é predeterminado pelo destino e controlado pelo espírito divino racional.
Ética
O aforismo fundamental é de que as pessoas deviam viver "de acordo com a lei natural", i.e., a natureza é um mundo formado e ordenado pela razão divina. E se a lei humana está de acordo com a lei natural, ela deve ser obedecida e seguida.
Fazendo parte de um mundo ordenado, o homem deve corresponder escolhendo fazer o que é moral e objetivamente bom. A escolha das ações corretas é a virtude e leva inevitavelmente à felicidade. O vício consiste em escolher ações contrárias à lei natural. Não há uma escala de excelência na graduação do caráter, e nenhuma pessoa é moralmente boa enquanto não atinge a perfeição moral.
A virtude é o único bem absoluto, e o vício o único mal absoluto. Entre os extremos há diversos objetos de desejo ou aversão que devem ser encarados com neutralidade: vida e morte, saúde e doença, prazer e dor, beleza e feiúra, riqueza e pobreza.
Todas as emoções tendem a perturbar o espírito e
É preciso evitar as emoções, incompatíveis com o autodomínio racional. As pessoas moralmente fortes e que buscam atingir a "apatia"
"Somente o sábio é belo porque somente a virtude é bela. Somente o sábio é rico porque a verdadeira riqueza consiste em não ter necessidades. O sábio é rei porque é senhor de si mesmo."
Com o tempo (στοά nova, v. adiante) houve uma atenuação do absolutismo estóico, e uma gradação de valores dos objetos. A busca da saúde, por exemplo, seria quase absolutamente boa, e a doença e aquilo que a produz (dieta incorreta e falta de exercícios, por exemplo) seria coisa a ser evitada. E também há o dever de subordinar os interesses particulares aos interesses da sociedade, pois "criar dificuldades uns aos outros é contra as leis da natureza".
Restam fragmentos escassos (5) dos fundadores do Estoicismo, o que não permite discernir com precisão a contribuição de Zênon e de outros antigos membros da Escola, como Cleantes e Crisipo, à doutrina.
Os escritos filosóficos dos romanos Cícero (6), Sêneca (7) e Marco Aurélio (8), felizmente, trazem preciosas citações em latim dos originais gregos, o que permitiu a reconstrução da doutrina.
Da tradição doxográfica, a obra mais importante que chegou a nós é a de Diógenes Laércio (9), escrita provavelmente na primeira metade do séc. III.
Os filósofos estóicos podem ser agrupados em função da época em que viveram. A "στοά" antiga corresponde mais ou menos ao século
Στοά antiga
Zênon de Cítion, fundador da Escola: viveu entre
Cleantes de Asso: viveu entre
Crisipo de Solunte: viveu entre
Στοά média
Panécio de Rodes: viveu de
Posidônio de Apaméia: viveu de
Στοά nova (12)
Sêneca de Córdoba (13): político, filósofo, poeta e tragediógrafo romano, viveu ente
Epicteto: ex-escravo nascido na Frígia (ásia Menor), viveu entre os romanos de 55 a 135, e foi mestre do historiador Arriano. É dele a frase "suporta e
Marco Aurélio: da dinastia dos Antoninos, viveu entre 121 e 180 e foi Imperador Romano de 161 a 180.
Zênon, o fundador do estoicismo, era considerado fenício por seus contemporâneos, e oriundo da Ilha de Chipre (14). Praticamente nada se sabe de sua vida pessoal, exceto que chegou a Atenas ainda jovem, e que estudou com alguns filósofos que o precederam, como Estílpon de Mégara, o cínico Crates de Tebas e Xenócrates da Calcedônia (15), da Academia.
Em -308 começou a ensinar na στοά ποικίλη da ágora (16) de Atenas, e da palavra στοά derivou o nome da Escola Estóica. Teve discípulos famosos, como Antígono II Gônatas, rei da Macedônia e Esfero, professor de filosofia do rei Cleômenes III de Esparta (17).
Cícero
O funeral de Zênon em Atenas foi efetuado às expensas da cidade, uma vez que "tinha feito de sua vida um exemplo para todos, pois seguiu seus próprios ensinamentos" (Harvey, 1987).
Dele se conta a seguinte anedota: ao açoitar um escravo surpreendido durante um roubo, este gritou "Mas estava escrito que eu devia roubar!", a que o filósofo respondeu: "E também estava escrito que você deveria ser açoitado." (Bowder, 1988).
É atribuída a ele a famosa frase "Temos duas orelhas e uma só boca porque devemos muito mais escutar do que falar." (Penha, 1987).
BRUNA, J. Introdução a "Marco Aurélio: Meditações". São Paulo: Cultrix, 1989.
BOWDER, D. Quem foi quem na Grécia Antiga. Trad. M.R. Almeida Marcondes. São Paulo: Art
ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL, s.v. "estoicismo". São
HARVEY, P. Dicionário Oxfod de Literatura Clássica Grega e Latina. Trad. M.G. Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.
LUCE, J.V. Curso de Filosofia Grega (do séc. VI a.C. ao séc.
PENHA, J. Períodos Filosóficos. São Paulo: Ática, 1987.
ROCHA PEREIRA, M.H. Estudos de História da Cultura Clássica, 1º volume. Lisboa: Calouste Gulkbenkian, 7ª ed., 1993.
RUNES, D.D. (dir.). Dicionário de Filosofia. Trad. M.V. Guimarães e cols. Lisboa: Presença, 1990.