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As quatro grandes escolas filosoficas do Período Helenístico (1) foram a Academia e o Liceu, que já existiam no período anterior, e mais o Estoicismo e o Epicurismo, fundadas no final do seculo -IV.

A "Escola Estóica", fundada por Zênon de Cítion em Atenas, durou cerca de 500 anos e grande foi a sua influência entre gregos e romanos. A doutrina estóica ajudou a moldar, por exemplo, o direito romano, pilar de muitas das doutrinas legais modernas.

O estoicismo é uma doutrina eclética, e incorpora muitos conceitos dos filósofos anteriores e contemporâneos: Heráclito, Platão e Aristóteles, os cínicos.

Linhas gerais da doutrina

Desde Zênon o estoicismo dividia a filosofia em três partes, como o epicurismo: lógica, física e ética.

"(...) Tal como Sócrates havia ensinado, a virtude é o único bem e o homem virtuoso aquele que atingiu a felicidade através do conhecimento. O homem virtuoso encontra a felicidade dentro de si e é imune ao meio exterior, que conseguiu superar dominando-se a si, às suas paixões e emoções. No que respeita à concepção estóica do universo como um todo, a doutrina é panteísta. Todas as coisas e todas as leis naturais ocorrem devido a uma determinação consciente da Razão do Mundo, que é fundamental. E é de acordo com esta ordem racional que, segundo o estoicismo, o homem sábio procura regular sua vida, como o seu mais alto dever." (2)

Lógica —
O termo lógica parece ter sido criado pelos estóicos, mas na época tinha sentido mais abrangente que o atual, e ligava-se à forma de adquirir o conhecimento. O conhecimento fundamenta-se na existência de objetos externos que agem constantemente sobre os sentidos e produzem "aparências" no espírito (o espírito pode, independentemente dos sentidos, gerar idéias ou "aparências mentais"). Os objetos dotados de "claridade" ou "nitidez" produzem no espírito um "assentimento" que gera uma resposta chamada de "compreensão". A compreensão é uma resposta perceptiva a um objeto realmente existente e diferente da opinião, que não é tão seguramente fundada na experiência. A compreensão proporciona o "critério" da verdade, usado para aquilatar a validade de percepções ou sentimentos.

Física
A visão estóica da natureza era tecnicamente materialista. O mundo é finito em extensão, e para agir ou ser objeto de ação, todas as coisas (objetos) existentes, mesmo um deus, a alma e qualidades abstratas como a bondade são dotadas de corpo. Os corpos são mais tênues ou mais sólidos conforme a noção que transmitem. A matéria total do mundo é infinitamente divisível e tudo preenche sem deixar vazios. As matérias mais finas e ativas são formadas de fogo e ar que misturados produzem um "espírito" ou "sopro ígneo" que nutre o mundo de dentro para fora.

Assim, o mundo é produto de um princípio ativo que permeia o mundo físico e dele faz parte, que modelou e modela os elementos materiais passivos para formarem o mundo ordenado de objetos separados, porém organicamente conectados entre si e mutuamente influentes. Deus não é extenso, faz parte do mundo que modelou, e foi um artífice competente, pois há ordem e designio nos aspectos significativos da realidade (o mundo é um cosmo (3)).

O corpo do cosmo é guiado pela razão, nada acontece por acaso, tudo é predeterminado pelo destino e controlado pelo espírito divino racional.

Ética
O aforismo fundamental é de que as pessoas deviam viver "de acordo com a lei natural", i.e., a natureza é um mundo formado e ordenado pela razão divina. E se a lei humana está de acordo com a lei natural, ela deve ser obedecida e seguida.

Fazendo parte de um mundo ordenado, o homem deve corresponder escolhendo fazer o que é moral e objetivamente bom. A escolha das ações corretas é a virtude e leva inevitavelmente à felicidade. O vício consiste em escolher ações contrárias à lei natural. Não há uma escala de excelência na graduação do caráter, e nenhuma pessoa é moralmente boa enquanto não atinge a perfeição moral.

A virtude é o único bem absoluto, e o vício o único mal absoluto. Entre os extremos há diversos objetos de desejo ou aversão que devem ser encarados com neutralidade: vida e morte, saúde e doença, prazer e dor, beleza e feiúra, riqueza e pobreza.

Todas as emoções tendem a perturbar o espírito e fazê-lo perder o equilíbrio da razão. O ideal é a "apatia" (gr. ἀπάθεια, "indiferença"), o estado de espírito no qual alguém cumpre seus deveres sem estar de modo algum dominado pela emoção (4). O famoso aforismo "suporta e abstém-te" resume esse aspecto da doutrina estóica.

A busca da perfeição

É preciso evitar as emoções, incompatíveis com o autodomínio racional. As pessoas moralmente fortes e que buscam atingir a "apatia" livram-se da ansiedade e têm o domínio de si mesmas, e são capazes de se sobreporem aos desejos e às inconstâncias da sorte. A independência em relação às emoções e aos desejos assegura ao sábio um estado de contentamento imperturbável. O tolo é presa da miséria e do descontentamento.

"Somente o sábio é belo porque somente a virtude é bela. Somente o sábio é rico porque a verdadeira riqueza consiste em não ter necessidades. O sábio é rei porque é senhor de si mesmo."

Com o tempo (στοά nova, v. adiante) houve uma atenuação do absolutismo estóico, e uma gradação de valores dos objetos. A busca da saúde, por exemplo, seria quase absolutamente boa, e a doença e aquilo que a produz (dieta incorreta e falta de exercícios, por exemplo) seria coisa a ser evitada. E também há o dever de subordinar os interesses particulares aos interesses da sociedade, pois "criar dificuldades uns aos outros é contra as leis da natureza".

Fontes escritas

Restam fragmentos escassos (5) dos fundadores do Estoicismo, o que não permite discernir com precisão a contribuição de Zênon e de outros antigos membros da Escola, como Cleantes e Crisipo, à doutrina.

Os escritos filosóficos dos romanos Cícero (6), Sêneca (7) e Marco Aurélio (8), felizmente, trazem preciosas citações em latim dos originais gregos, o que permitiu a reconstrução da doutrina.

Da tradição doxográfica, a obra mais importante que chegou a nós é a de Diógenes Laércio (9), escrita provavelmente na primeira metade do séc. III.

Principais Representantes

Os filósofos estóicos podem ser agrupados em função da época em que viveram. A "στοά" antiga corresponde mais ou menos ao século -III; a "στοά média", aos séculos -II e -I; e a "στοά nova" aos séculos I-IV.

Στοά antiga —

Zênon de Cítion, fundador da Escola: viveu entre -335 a -263 (10), e na doutrina deu mais ênfase à parte ética;

Cleantes de Asso: viveu entre -331 e -232, e deu mais ênfase à parte religiosa (11);

Crisipo de Solunte: viveu entre -280 e -206, desenvolveu a parte lógica e sistematizou a doutrina estóica tal como a conhecemos.

Στοά média —

Panécio de Rodes: viveu de -185 a -110, e foi o principal introdutor do estoicismo na sociedade romana;

Posidônio de Apaméia: viveu de -135 a -50, contemporâneo de Cícero, reuniu ecleticamente a doutrina dos estóicos "antigos" ao pensamento de Platão e Aristóteles e fez contribuições às ciências naturais, à matemática e à astronomia.

Στοά nova (12) —

Sêneca de Córdoba (13): político, filósofo, poeta e tragediógrafo romano, viveu ente -4 e 65 e foi preceptor do Imperador Nero;

Epicteto: ex-escravo nascido na Frígia (ásia Menor), viveu entre os romanos de 55 a 135, e foi mestre do historiador Arriano. É dele a frase "suporta e abstém-te";

Marco Aurélio: da dinastia dos Antoninos, viveu entre 121 e 180 e foi Imperador Romano de 161 a 180.

Zênon de Cítion

Zênon, o fundador do estoicismo, era considerado fenício por seus contemporâneos, e oriundo da Ilha de Chipre (14). Praticamente nada se sabe de sua vida pessoal, exceto que chegou a Atenas ainda jovem, e que estudou com alguns filósofos que o precederam, como Estílpon de Mégara, o cínico Crates de Tebas e Xenócrates da Calcedônia (15), da Academia.

Em -308 começou a ensinar na στοά ποικίλη da ágora (16) de Atenas, e da palavra στοά derivou o nome da Escola Estóica. Teve discípulos famosos, como Antígono II Gônatas, rei da Macedônia e Esfero, professor de filosofia do rei Cleômenes III de Esparta (17).

Cícero transmitiu-nos uma cena de suas aulas: para ilustrar os vários estágios da percepção ao conhecimento irrefutável o filósofo mostrava inicialmente um dos braços com os dedos da mão esticados e separados (primeira tentativa de contato entre o espírito e o mundo exterior); dobrava e unia então os dedos até se juntarem para formar um punho fechado (o momento da compreensão), e finalmente segurava o punho com a outra mão (retenção do conhecimento adquirido para uso).

O funeral de Zênon em Atenas foi efetuado às expensas da cidade, uma vez que "tinha feito de sua vida um exemplo para todos, pois seguiu seus próprios ensinamentos" (Harvey, 1987).

Dele se conta a seguinte anedota: ao açoitar um escravo surpreendido durante um roubo, este gritou "Mas estava escrito que eu devia roubar!", a que o filósofo respondeu: "E também estava escrito que você deveria ser açoitado." (Bowder, 1988).

É atribuída a ele a famosa frase "Temos duas orelhas e uma só boca porque devemos muito mais escutar do que falar." (Penha, 1987).

Notas
  1. De -323, data da morte de Alexandre Magno, até -30, data do estabelecimento do Império Romano por Augusto.
  2. Verbete de Max Fishler in Runes, 1990, p. 128, o.c..
  3. No sentido grego de "ordem".
  4. A "apatia estóica" nada tem a ver com o conceito que se dá atualmente à palavra apatia.
  5. Reunidos e editados por H.F. von Arnim em 4 volumes: Stoicorum Veterum Fragmenta, Leipzig, 1923-1924 (reimpressão: Stuttgart, 1964).
  6. Cícero viveu entre -106 e -43.
  7. Suas obras filosóficas "Sobre a brevidade da vida", "Sobre a tranqüilidade da alma" e "Sobre o ócio" foram recentemente traduzidas para o português e publicadas pela Editora Nova Alexandria.
  8. A obra Τὰ εἰς ἑαυτόν ("Meditações", na versão tradicional) é disponível em tradução portuguesa (Ed. Presença) e brasileira (Cultrix, v. tradução de J. Bruna na Bibliografia).
  9. Há uma tradução para o português publicada pela UnB.
  10. Conjetura tradicional; seu ἀκμή (cf. latim floruit) é habitualmente situado por volta de -300.
  11. Grande parte de um Hino a Zeus, de sua autoria, chegou até nós.
  12. Faz parte do Período Greco-romano, séculos I e II.
  13. Não confundir o Sêneca "filósofo" com seu pai, o Sêneca "retórico".
  14. Cítion, do grego Κίτιον (latinizado para Citium), significa "de Chipre".
  15. Estílpon viveu entre -380 e -300, o floruit de Crates situa-se entre -328 e -324, e Xenócrates viveu de -395 a -314.
  16. Na ágora de Atenas havia dois famosos pórticos colunados: esse, decorado com afrescos de pintores famosos, inclusive um do famoso Polignoto que representava a destruição de Tróia, e o pórtico conhecido por στοὰ βασιλέως, onde se sentava o arconte-rei e eram afixados as leis e os decretos.
  17. Plutarco, Βίοι Παράλληλοι (Plu.Cleom. 2).
Bibliografia

BRUNA, J. Introdução a "Marco Aurélio: Meditações". São Paulo: Cultrix, 1989.

BOWDER, D. Quem foi quem na Grécia Antiga. Trad. M.R. Almeida Marcondes. São Paulo: Art Editora / Círculo do Livro, 1988.

ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL, s.v. "estoicismo". São Paulo / Rio de Janeiro: Britannica, 1979.

HARVEY, P. Dicionário Oxfod de Literatura Clássica Grega e Latina. Trad. M.G. Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.

LUCE, J.V. Curso de Filosofia Grega (do séc. VI a.C. ao séc. III d.C). Trad. M.G. Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

PENHA, J. Períodos Filosóficos. São Paulo: Ática, 1987.

ROCHA PEREIRA, M.H. Estudos de História da Cultura Clássica, 1º volume. Lisboa: Calouste Gulkbenkian, 7ª ed., 1993.

RUNES, D.D. (dir.). Dicionário de Filosofia. Trad. M.V. Guimarães e cols. Lisboa: Presença, 1990.

Imagens de Graecia Antiqua

  1. Zênon de Cítion