Wilson Alves Ribeiro Jr.
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teatro de Dioniso em Atenas. período greco-romano. © Janice Siegel
Minuta do SEMINÁRIO apresentado no Curso de Mestrado em Letras Clássicas da FFLCH-USP em outubro de 2002, baseado no artigo de J.R. Green, On Seeing and Depicting the Theatre in Classical Athens (Greek, Roman and Bizantine Studies, v. 32, n. 1, p. 15-50, 1991).

Green destacou alguns aspectos da interação entre a representação teatral e a audiência com base na visão dos pintores de vasos da Atenas do século -V. Não abordou os vasos do século -IV, nem os vasos procedentes do sul da Itália.

Introdução

Não se pode perder de vista que os dramas gregos foram escritos para serem representados diante de uma audiência e que o impacto de comédias, tragédias e dramas satíricos era diferente. A representação era tão importante que o autor do texto participava diretamente e ativamente dela.

O espaço físico disponível influía na representação da peça. Em Atenas, no século -V, a forma da orquestra do Teatro de Dioniso era provavelmente semelhante à do Teatro de Thorikos: alongada, não-circular, medindo cerca de 25 x 12 metros. As primeiras filas e os atores ficavam muito próximos e havia mais intimidade entre audiência e elenco do que nos séculos posteriores.

Os pintores de vasos eram membros da audiência e suas pinturas mostravam, dentro das tradições de sua arte, o impacto das representações dramáticas no público (as imagens dos vasos não eram desenhos do cenário e nem fotos das representações).

Comédia

Cenas de comédia existem nos vasos desde -550, pelo menos, antes da data oficial (-486). O coro é quem mais aparece, em geral acompanhado de um auleta que, muitas vezes, conduz as demais figuras. Essas figuras habitualmente se vestem e agem de modo uniforme.

A entrada do coro, nas comédias mais antigas, era o ponto alto da representação e tinha o maior impacto visual de toda a encenação. As comédias mais antigas tinham, provavelmente, somente um coro (o coro era o núcleo da comédia antiga e também, em certo sentido, a própria peça). É justamente a entrada do coro que os vasos mostram; os atores começaram a aparecer mais tarde, perto do fim do século -IV.

Para o pintor de vasos e seu público, portanto, o coro identificava a comédia. O aspecto visual era muitas vezes descrito pelo texto (reforço verbal, mais comum nas tragédias). Exemplo:

ἆ, ἆ.
δμοιαὶ γυναῖκες αἵδε γοργόνων δίκην
φαιοχίτωνες καὶ πεπλεκτανημέναι
πυκνοῖς δράκουσιν· οὐκέτ' ἂν μείναιμ' ἐγώ.

Ah, ah!
Essas horrendas mulheres, como Górgonas,
com vestes negras e tranças entremeadas
de muitas serpentes! Não posso ficar.
[ A. Ch. 1048-50 ]

ἄναξ Ἄπολλον, αἵδε πληθύουσι δή,
κἀξ ὀμμάτων στάζουσιν αἷμα δυσφιλές.

Senhor Apolo, o número delas aumenta
e de seus olhos cai odioso sangue.
[ A. Ch. 1057-8 ]

A ilusão dramática era apenas parcial (sem dúvida, fazia parte da Comédia Antiga deixar a audiência ciente da artificialidade daquilo que se mostrava).

Como o impacto dos atores era menor, nos vasos mais antigos eles eram mostrados como estavam, sem referências claras ao contexto dramático (exceção: vasos do sul da Itália, não discutidos neste artigo).

As mais antigas evidências de tipos-padrão em situações-padrão datam do fim do século -V. Isso indica que a Comédia Intermediária era ativa antes da virada do século (para Seagal, Aristófanes demorou a aderir ao gênero...).

Tragédia

A tradição de representação das tragédias em vasos é diferente da tradição das comédias. As representações de tragédias não são imediatamente reconhecíveis: não há coturnos nem máscaras... Não há também, até agora, nenhuma representação conclusiva de atores e de coros trágicos durante o século -V.

Algumas possibilidades, ligadas ao coro: presença do auleta, figuras com roupas semelhantes e com gestos uniformes, expressões faciais muito parecidas.

Até há pouco tempo qualquer imagem com identidade de assunto entre tragédias sobreviventes (ou não) era considerada uma representação de tragédia. Estudos atuais reconhecem que a iconografia tem sua própria linguagem (no momento, uma linguagem não decifrada).

A representação da tragédia parece ter algo a ver com o modo pelo qual ela era recebida pela audiência, da qual o pintor participava. A comédia era vista literalmente, devido à ruptura freqüente da ilusão dramática (audiência ciente: homens fantasiados fazendo graça). Na tragédia a ilusão dramática se mantinha constantemente; as figuras em cena recriavam o mito e o pintor mostrava-as como se fosses reais ("as figuras do pintor eram aquilo que o poeta queria que fossem, recriações dos personagens do drama").

Alguns vasos têm tênues evidências de representação de um coro; mas não há representações de atores trágicos atuando e Green suspeita que nunca teremos. Até agora, a mais convincente série representativa de performances trágicas parece se relacionar com a Andrômeda de Sófocles (5 vasos).

Drama satírico

As representações desse gênero usavam duas convenções, a das comédias e a das tragédias. No primeiro caso, os atores eram mostrados como "membros do coro", usando os apetrechos necessários para parecerem sátiros (roupas apertadas, caudas, máscaras); no segundo caso, eram mostrados como os próprios "sátiros" (neste último caso, os problemas de interpretação são os mesmos das pinturas derivadas de tragédias).

Não é fácil achar exemplo de ruptura da ilusão dramática do drama satírico nos poucos textos que restaram — talvez em um trecho do Isthmiastae, de Ésquilo, em que os sátiros carregam máscaras iguais às que estão usando.

À medida que o século -V avançava, cada vez mais os dramas satíricos eram mostrados antes e depois da encenação; a audiência, portanto, estava consciente do grau de ilusão envolvido na atuação. Esse fato sugere mudança no gênero e mostra a capacidade do público de reconhecer isso.

Talvez a comédia como a conhecemos só tenha se firmado por volta de -430, época em que se nota o aparecimento de atores — e não apenas o coro — em pinturas de vaso. É muito possível que a comédia tenha ocupado áreas que eram cobertas anteriormente pelo drama satírico.

Conclusão

O presente artigo mostrou como ver a interação entre performance teatral e audiência nos vasos da Atenas do século -V, e como distinguí-las .

Textos complementares

GREEN, R. & HANDLEY, E. Images of the Greek Theatre. London: British Museum Press, 1995.

GREEN, J.R. Forty years of Theatre Research and its future directions. Disponível em http://www.open.ac.uk/Arts/CC99/green.html. Acessado em janeiro de 1999.

KAROUZOU, S. National Museum. Athens: Ekdotike Athenon, 1999.

LAWRENCE, A.W. Arquitetura grega. Trad. M.L. Moreira de Alba. São Paulo: Cozac & Naify, 1998.

ΣΕΡΒΗ, Κ. Ελληνική Μυθολογία. Αθήνα: Εκδοτική Αθηνών, 1998.

SPIVEY, N. The world as a stage. In: ________, Greek Art. London: Phaidon, p. 275-312, 1997.

TAPLIN, O. Comic Angels. New York: Oxford University Press, 1993.

TRENDALL, A.D. & WEBSTER, T.B.L. Illustrations of Greek Drama. London: Phaidon, 1971.

Imagens de Graecia Antiqua

  1. O teatro de Thorikos
  2. O teatro de Dioniso em Atenas
  3. Dançarinos com enchimentos
  4. Coro de cavaleiros diante de um auleta
  5. Coro de cavaleiros sobre delfins
  6. Auleta e mênade
  7. Perseu observa Andrômeda
  8. Auleta, coro de mênades e sátiros

outras imagens

  1. Auleta e dançarinos vestidos de aves (um coro, cf. Green). -415/-400, Malibu, The J.P. Getty Museum
  2. Dioniso, Ariadne e o elenco de um drama satírico após a representação. -410, Nápoles, Museo Archeologico

URLs úteis

  • Dr. J's Illustrated Guide to Classical World
  • Perseus Digital Library
  • The Beazley Archive
  • The VRoma Project
  • World Images Kiosk
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