Wilson Alves Ribeiro Jr.
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aspectos do feminino na mitologia grega
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Afrodite. pintor de pistoxeno, 460 a.C. © Marie-Lan Nguyen W
Minuta de MINI-CURSO de 4h, ministrado de 3 a 6 de outubro de 2000 em Araraquara (SP), durante a XV Semana de Estudos Clássicos da Regional SE-2 da SBEC, juntamente com Flávia R. Marquetti, da FCLAr-UNESP.

Ementa publicada em Scripta Manent, Araraquara, v. 1, n. 1, p. 5, 2000.

  1. O feminino nos mitos primordiais. O feminino na Criação: Gaia, Titânides, Nereidas, Ninfas. A deusa-mãe e as divindades olímpicas: Deméter, Ártemis, Afrodite.
  2. O mito do feminino na literatura. A mulher dentro e fora de casa: Pandora e o Iambo das Mulheres de Semônides de Amorgos. Três visões do mito de Electra: Ésquilo, Sófocles e Eurípides.
  3. O feminino na ciência grega e na mitologia. Deusas, heroínas e mulheres da Medicina: Dione, Ártemis, Ilítia, Prócris. O feminino ultrajado: Pasífae, Hipólito, Narciso, Adônis.

Introdução

O mistério do feminino intriga o homem desde sua origem. Ora venerada como a Senhora absoluta, amada e temida, ora relegada a um segundo plano, em favor de um Deus Macho, a Deusa Mãe e seus desdobramentos conheceu, ao longo dos milênios, a glória e a repulsa, mas nunca a indiferença. [FRM]

Desde as mais remotas origens o mito grego apresenta o feminino como um reflexo importante de diversos aspectos da realidade. A evolução e os limites do papel da mulher na sociedade grega é visível especialmente nos relatos míticos, em trechos da poesia épica, lírica e trágica, e em obras de arte. [WARJ]

O FEMININO NOS MITOS PRIMORDIAIS

1. A criação [WARJ]

A mitologia e a religião das comunidades que viveram na península balcânica antes da chegada dos povos de língua grega (1) eram baseadas em conceitos fundamentalmente femininos. Isso se reflete nitidamente nos mitos da criação, em que todo o mundo conhecido emerge de uma entidade feminina primordial. Essenciais também ao processo de formação do mundo foram as titânides, contrapartes femininas dos titãs; as musas, que representavam as diversas formas do pensamento; e também as diversas divindades femininas "naturais", como as nereidas e as ninfas.

2. A deusa-mãe e as divindades olímpicas [FRM]

As primeiras representações femininas, conhecidas por "Vênus paleolíticas", datam aproximadamente de 30000 a.C. Encontradas em cavernas e em abrigos de caçadores-coletores, elas possuem formas bastante opulentas, que valorizam os seios, as nádegas e o ventre — atributos que as distinguem como representações da Deusa Mãe. Esta, no Paleolítico e início do Neolítico, era a representação da Natureza vista como um todo, abarcando a terra, as matas, os rios, os animais, e tudo o que cerca o homem e sua vida.

Com a sedentarização do homem durante o Neolítico Médio e o advento da cerealicultura e da domesticação de animais, a Deusa Mãe passou a representar mais especificamente a terra fecunda na qual o homem trabalhava/semeava e da qual retirava tudo o que necessitava. Com algumas alterações na representação (mais "esbelta") a figura feminina ainda ocupava o lugar de destaque e recebia todas as honras, e como Senhora da fertilidade e da fecundidade ela ainda reinava. Com o correr dos milênios, a imagem da Deusa ganhou novos atributos, e foi associada a a diversos animais e a outras funções. Em Creta, por exemplo, entre 1700 e 1400 a.C., ela aparecia junto de serpentes e do touro, e suas festas e ritos propiciatórios eram ligados à terra e aos ciclos da natureza.

Com a expansão das tribos guerreiras do continente, as culturas matrilineares (cerealicultores e pastores, geralmente) foram conquistadas por eles, e um Deus Macho e guerreiro dominou o panteão. A Deusa, então, assumiu o papel de mãe, esposa ou filha dele... Mas, apesar da religião oficial dar prioridade ao Deus, a Deusa (agora multiplicada e subdividida em muitas) ainda recebia um culto ostensivo, embora paralelo. A cidade continuou um espaço des homens e Deuses machos; já o interior da casa, o campo, as matas e/ou as áreas limítrofes entre o civilizado e o selvagem, eram dominados pela Deusa Mãe em suas muitas faces: Afrodite, Deméter, Ártemis, entre outras. A cada uma delas coube uma área, uma parcela do domínio da antiga Deusa Mãe.

O FEMININO NA LITERATURA

1. A mulher dentro e fora de casa [FRM]

Embora as deusas ainda recebessem um tratamento honroso, ocupando um segundo plano no panteão grego, a mulher era vista desde Hesíodo até o século V a.C. como um grande mal, um castigo infringido aos homens por Zeus.

No mito de Prometeu e de Pandora, a mulher aparece como um "presente" dado aos homens. Hesíodo conta que Hefesto moldou-a semelhante às deusas nas feições e que os demais deuses e deusas concederam-lhe ainda muitos dons. Hermes, especificamente, lhe pôs no coração a perfídia e os discursos enganosos, além da curiosidade...

Ora, junto com Pandora veio também uma caixa fechada, ou pithos (jarro). Pandora abriu a caixa, curiosa... e espalhou todos os males, até então presos na caixa, pelo mundo. Desde então, a mulher é considerada a origem de todos os tormentos do homem e, trancada no gineceu (2), deve ser vigiada.

2. Três visões do mito de Electra [WARJ]

Os poetas trágicos tratavam os mitos tradicionais de diferentes pontos de vista, e seus textos refletiam também a diferente visão que tinham do papel da mulher na sociedade. A lenda de Electra e Orestes se presta muito bem à comparação, pois serviu de tema a pelo menos uma tragédia de cada um deles.

O FEMININO NA CIÊNCIA E NA RELIGIÃO

1. O feminino ultrajado [FRM]

A tentativa de reduzir o feminino a uma condição de inferioridade e submissão ao homem demonstra o temor, ainda presente, em relação a esse ser tão misterioso e poderoso, a mulher, e sua versão divina, a Deusa (ou deusas). Dentre todas elas, a mais temida é, sem dúvida, Afrodite. Doce e generosa para com os que ama, terrível e implacável para com seus desafetos ou os que ousam não lhe oferecer culto.

Um sem-número de personagens míticos sentiram na pele, literalmente, a ira de Afrodite. Dentre eles: Hipólito, filho de Teseu e de Antíope, uma das amazonas; Mirra (ou Esmirna), filha do rei da Síria, e que foi mãe de Adônis; e Narciso.

2. Deusas, heroínas e mulheres médicas [WARJ]

Ao lado da Matemática, a medicina é uma das mais bem conhecidas ciências cultivadas pelos antigos gregos. É interessante notar que, embora a prática médica fosse uma exclusividade dos homens (como bem ilustra o Juramento de Hipócrates), diversas figuras femininas míticas tinham importante papel tanto na causa como na cura das doenças.

NOTAS

  1. Isso ocorreu, provavelmente, no início do Bronze Médio (por volta de 2000 a.C.).
  2. Conjunto de aposentos da casa destinados apenas às mulheres.
  3. Esta lista privilegia textos em português e espanhol, de mais fácil acesso.

LEITURAS RECOMENDADAS

APOLODORO. Biblioteca Mitológica. Trad. J.G. Moreno. Madrid: Alianza, 1993.

MALHADAS, D. & MOURA NEVES, M.H. Antologia dos Poetas Gregos de Homero a Píndaro. Araraquara: FFCLAr-UNESP, 1976.

HAMILTON, E. A Mitologia. Trad. M.L. Pinheiro. Lisboa: Dom Quixote, 1983.

EURÍPIDES. Hipólito. Trad. B.S. Oliveira. Coimbra: INIC, 1979.

HESÍODO. Os Trabalhos e os Dias. Trad. M.C.N. Lafer. São Paulo: Iluminuras, 1990.

HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Trad. J.A.A. Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1991.

HOMERO. Ilíada. Trad. E. Lassèrre (versão portuguesa de O.M. Cajado). São Paulo: Círculo do Livro, 1983.

HOMERO. Odisséia. Trad. M. Dufour (versão portuguesa de A.P. Carvalho). São Paulo: Abril, 1978.

VERNANT, J.-P. O universo, os deuses, os homens. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.

KERÉNYI, K. Os deuses gregos. Trad. O.M. Cajado. São Paulo: Cultrix, 1993.

_________. Os heróis gregos. Trad. O.M. Cajado. São Paulo: Cultrix, 1993.

GRIMAL, P. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Trad. V. Jabouille. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2ª ed., 1993.

 
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