Wilson Alves Ribeiro Jr.
em@il
mito, religião e pensamento científico na grécia antiga
img
templo de Asclépio em Cós. período imperial. © Karel Jakubec W
Minuta de CONFERÊNCIA apresentada em 28 de junho de 2000 ao PET do Departamento de Engenharia de Produção da UFSCar.

Mito é uma narrativa maravilhosa com personagens sobre-humanos; pode ser apenas um relato fictício, uma história, ou então uma tentativa de explicar algum acontecimento ou fenômeno aparentemente inexplicável.

Religião é um sistema de crenças (geralmente míticas) e rituais (combinação de gestos, palavras e atitudes) através dos quais se procurava — e em nossos dias ainda se procura — algum tipo de relacionamento com as forças sobrenaturais (divindades).

A Ciência, por sua vez, é um conjunto de conhecimentos acerca do universo reunidos de forma sistemática e objetiva, de acordo com uma certa quantidade de regras que formam o "método científico":

  • observação (com o uso de instrumentos adequados);
  • hipótese (explicação provisória);
  • experimentação (teste da hipótese);
  • generalização (extensão das conclusões a outros fenômenos).
  • Mito e religião, de um lado, e ciência, de outro, são apenas diferentes formas do homem explicar o mundo em que vive, e de obter algum tipo de controle sobre as forças da natureza de que depende para sobreviver. Mas, enquanto o mito e a religião são formas pré-racionais de entendimento do universo, a ciência considera todos os fenômenos naturais e passíveis de abordagem racional.

    Na verdade, tanto a abordagem racional como a não-racional, isoladamente, descrevem de forma incompleta a Natureza [1]. Mesmo um cientista, por exemplo, ao contemplar uma paisagem, é capaz de descrever racionalmente as leis da Física envolvidas no fenômeno (como a refração e a difração da luz, entre outras), mas percebe a beleza da cena e suas cores de forma não-racional...

    Rápido panorama da religião grega

    A religião grega, bem conhecida a partir da época Arcaica [2], era publicamente centrada no culto aos deuses do Olimpo e aos heróis [3]. Privadamente, cultuava-se também os mortos e participava-se dos assim chamados cultos de mistério [4].

    Pensava-se que os deuses interferiam diretamente nos assuntos humanos, e era necessário aplacá-los através de sacrifícios; a Asclépio, deus da Medicina, era costume sacrificar um galo, por exemplo. Os sacerdotes que auxiliavam os fiéis em suas preces e sacrifícios não constituíam o que hoje chamaríamos de 'clero': considerados servos do deus, administravam seus templos e santuários, e na comunidade eram tratados como simples cidadãos.

    Festivais religiosos eram celebrados regularmente, para que toda a comunidade pudesse honrar o deus da cidade. As famosas Olimpíadas, por exemplo, eram festivais da cidade de Olímpia em honra a Zeus e aconteciam a cada quatro anos. Além das cerimônias religiosas de praxe, havia também concursos de poesia, competições atléticas e corridas de carros.

    Os doze deuses olímpicos [5] representavam básicamente o 'componente celeste' da religião grega, associado ao dia luminoso e claro; provavelmente, seu culto foi levado à Grécia pelas populações indo-européias que chegaram depois de -2000. O culto aos mortos e os cultos de mistério eram parte do 'componente ctônico', de origem Neolítica (anterior a -3000, portanto) e ligado à fertilidade da terra.

    O mito como explicação do mundo

    Serão apresentados sumariamente apenas quatro tópicos: a agricultura, a poesia, a medicina e a cosmologia entre os gregos.

    1. A agricultura

    Os fenômenos associados à agricultura eram provavelmente um completo mistério para os agricultores primitivos [6]: a planta morre e deixa uma semente; planta-se a semente, dá-se a ela alguns cuidados, e meses depois surge uma planta em tudo semelhante à original.

    A explicação mítica envolve Deméter, a deusa da agricultura; sua filha Perséfone; e Hades, o deus do mundo subterrâneo. É muito ilustrativo o relacionamento que o mito faz entre a morte e renascimento cíclico das plantações e o rapto de Perséfone.

    2. A poesia

    Na Grécia, como em muitos outros lugares, a literatura não-escrita antecedeu a escrita. Durante incontáveis séculos, enorme quantidade de hinos religiosos, gestas guerreiras e histórias míticas cantados em festivais e outras ocasiões foram conservados oralmente, em versos, pelos aedos e rapsodos, poetas-cantores dotados de prodigiosa memória.

    Nem todas as pessoas eram dotadas de tal capacidade; conseqüentemente, conceitos abstratos como memória e inspiração poética eram considerados dons de origem divina, atribuídos pelos deuses a alguns poucos mortais.

    Isso está bem ilustrado nas epopéias heróicas [7], em que o poeta fazia sempre uma invocação às musas, divindades que personificavam todas as formas de pensamento, ao iniciar a declamação do poema ou até mesmo antes de um trecho particularmente difícil...

    3. A medicina

    Desde épocas muito remotas os médicos gregos conheciam as propriedades curativas de diversas plantas e eram já capazes de tratar corretamente ferimentos de diversos tipos. Todo esse conhecimento, no entanto, havia sido adquirido de modo totalmente empírico e não racional, através do famoso método da tentativa-e-erro.

    Os relatos míticos que explicam a origem da Medicina e sua transmissão dos deuses aos homens estão dentre os mais elaborados de toda a Mitologia Grega. Dentre os diversos deuses com atributos médicos, Asclépio era o mais popular. Seus santuários, verdadeiros templos da cura, estavam espalhados por toda a Grécia, e a eles os fiéis acorriam constantemente em busca de alívio para suas doenças.

    4. Cosmologia: a imagem do mundo

    Antes dos filósofos "pré-socráticos" (século -VI), a concepção grega do Universo era guiada, primordialmente, pelas aparências: a Terra, estática, era o centro de tudo; o céu era uma abóbada que recobria a Terra; e o Sol, é claro, girava em torno da Terra... Tudo, desde a formação do Universo até o mais simples dos fenômenos naturais recebia uma explicação mítica.

    Alguns exemplos: o Universo [8] tinha sido formado a partir de Gaia, a terra, e de Urano, o céu; os relâmpagos eram lançados por Zeus, o "amontoador de nuvens"; a chuva era também obra dele e, quando chovia, dizia-se "Zeus está chovendo"; os terremotos eram atribuídos a Posídon, o "abalador do chão".

    Os primórdios do pensamento científico

    A ciência grega — e por extensão a Ciência Ocidental — tem registro de nascimento: 28 de maio de -585, dia previsto por Tales de Mileto (-625/-545) para um eclipse solar que afetou as ilhas gregas.

    Tales é o mais antigo dos filósofos pré-socráticos, nome convencional dado a diversos intelectuais que viveram nos séculos -VI e -V e procuravam explicar o Universo sem recorrer à religião e aos mitos.

    Eles não eram ainda 'cientistas' na acepção atual do termo, pois não quantificavam suas observações e não testavam suas teorias através da experimentação; sua investigação dava-se somente em termos de especulação, análise e inferência teórica. Podemos, no entanto, chamá-los de 'pré-cientistas', já que eram dotados de vários dos atributos necessários: inteligência, curiosidade, capacidade de observação, ceticismo e imaginação...

    Conclusão

    Os mitos gregos, assim como a antiga religião grega, são parte importante do patrimônio cultural da humanidade, notadamente da Civilização Ocidental. Durante incontáveis séculos, constituíram a única explicação do mundo e de seus fenômenos, tanto na Grécia Antiga como em outras culturas igualmente antigas; somente nos últimos 500 anos a Ciência foi capaz de explicar racionalmente parte da estrutura e funcionamento da Natureza.

    Muita coisa há ainda por se descobrir e, enquanto isso, convém lembrar que até mesmo a Ciência tem seus limites e provavelmente não será capaz de descobrir explicações racionais para tudo.

    Talvez os cientistas precisem de um pouco de irracionalidade, tanto quanto a irracionalidade precisa também de um pouco de ciência...

    Notas

    1. "Natureza", em grego, é physiké; daí a palavra portuguesa Física.
    2. A história dos gregos é habitualmente dividida nas seguintes fases: Período Micênico (-1550/-1100); Idade das Trevas (-1100/-750); Período Arcaico (-750/-480); Período Clássico (-480/-323); Período Helenístico (-323/-30) e Período Greco-Romano (-30/476).
    3. Os heróis ou semideuses, filhos de um deus e de uma mortal (ou vice-versa), embora mortais, eram capazes de façanhas sobre-humanas. Os mais populares dentre os heróis gregos eram Héracles e Teseu.
    4. Os mais importantes eram os mistérios de Elêusis, dedicados a Deméter e sua filha Perséfone, e o culto órfico, dedicado a Orfeu.
    5. Zeus, Hera, Deméter, Posídon, Ares, Atena, Apolo, Ártemis, Afrodite, Hefesto, Hermes e Dioniso.
    6. A Grécia é a mais antiga área agrícola da Europa. Os primeiros agricultores chegaram por volta de -6500 e instalaram-se na Tessália (norte da Grécia).
    7. A literatura grega é também a mais antiga da Europa. Os mais antigos textos literários que chegaram até nós, a Ilíada e a Odisséia, são gestas guerreiras compostas na metade do século -VIII, aproximadamente. Transmitidas oralmente de rapsodo a rapsodo, devem ter sido confiadas à escrita pouco antes de -500, quase duzentos e cinqüenta anos depois...
    8. A palavra "Universo", aqui, compreende apenas o que era visível aos gregos daquela época: a própria Terra, o sol, a lua e o céu estrelado.

    Leituras recomendadas

    FINLEY, M.I. (org.). O Legado da Grécia. Trad. Y.V. Pinto de Almeida. Brasília: Ed. UnB, 1998.

    ROCHA PEREIRA, M.H. Estudos de História da Cultura Clássica, v. I Lisboa: Calouste Gulbenkian, 7ª ed., 1993.

    RIBEIRO JR., W.A. As musas. Revista eletrônica Grécia Antiga, v. 9, n. 9, p. 99-99, 1998. Disponível em warj.med.br/pub/musas.pdf

    VERNANT, J.P. As Origens do Pensamento Grego. Trad. I.B.B. Fonseca. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 7ª ed., 1992.

     
      © 1997-2010   Wilson A. Ribeiro Jr. Página atualizada em fevereiro de 2006.
    Iatreion   |   Didascalica   |   Portal Graecia Antiqua   |   Wilson A. Ribeiro Jr.