Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

Gil Vicente (c. 1465-1536) foi um dos maiores poetas e dramaturgos portugueses. Reproduzo aqui os versos 74-113 do ʻAuto da Barca do Infernoʼ, representado pela primeira vez em 1517.

Texto original

ANJO
 Que querês? 
FIDALGO
 Que me digais, 
 pois parti tão sem aviso,75
 se a barca do Paraíso 
 he esta em que navegais. 
ANJ.Esta é; que demandais? 
FID.Que me leixês embarcar. 
 Sou fidalgo de solar,80
 é bem que me recolhais. 
ANJ.Não se embarca tyrania 
 neste batel divinal. 
FID.Não sei porque haveis por mal 
 que entr'e minha senhoria...85
ANJ.Pera vossa fantesia 
 mui estreita é esta barca. 
FID.Pera senhor de tal marca 
 nom ha i mais cortesia? 
 Venha a prancha e atavio!90
 Levae-me desta ribeira! 
ANJ.Não vindes vós de maneira 
 pera ir neste navio. 
 Ess'outro vai mais vazio: 
 a cadeira entrará95
 e o rabo caberá 
 e todo vosso senhorio. 
 Vós irês mais espaçoso 
 com fumosa senhoria, 
 cuidando na tyrania100
 do pobre povo queixoso; 
 e porque, de generoso, 
 desprezastes os pequenos, 
 achar-vos-ês tanto menos 
 quanto mais fostes fumoso.105
DIABO
 Á barca, Á barca, senhores! 
 Oh! que maré tão de prata! 
 Um ventezinho que mata 
 e valentes remadores! 
      (Diz, cantando) 
 Vós me veniredes a la mano,110
 á la mano me veniredes 
 y vos veredes 
 peixes nas redes. 

Referências

Gil Vicente, Obras Completas tomo I, São Paulo, Ed. Cultura, 1946, p. 201-2.

Segismundo Spina (ed.), Obras-primas do teatro vicentino, S. Paulo, Difel, 41983, p. 109-10.


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