Tanto de meu estado me acho incerto, de Camões

O poeta português Luiz Vaz de Camões (1524-1580) se inspirou no neoplatonismo, em Petrarca e na lírica trovadoresca ao compor este soneto, publicado em 1595 (editio princeps) a partir de um manuscrito de 1577.

Texto original

Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio, o mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto: dalma um fogo me sai, da vista um rio; agora espero, agora desconfio; agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao ceo voando; em ũ'hora acho mil anos, e de jeito que em mil anos não posso achar ũ'hora.
Se me pregunta alguém porque assi ando, respondo que não sei; porém sospeito que é só porque vos vi, minha Senhora.

Referência

Leodegário A. de Azevedo Filho, Introdução à Lírica de Camões, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1990, p. 114.


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